Listeriose na Europa: a ameaça silenciosa que não podemos ignorar

A listeriose evidencia a fragilidade dos nossos sistemas de segurança alimentar. Mesmo na Europa, onde os padrões são avançados e os controlos rigorosos, persistem vulnerabilidades. A prevenção, vigilância contínua, a inovação e a sensibilização são essenciais para manter este perigo silencioso sob controlo.

 

Nos últimos anos, as notícias sobre intoxicações alimentares tornaram-se frequentes, geralmente associadas a bactérias conhecidas, como Salmonella ou Campylobacter. Em contrapartida, a Listeria é menos frequentemente reportada. As infeções são relativamente raras, mas cada caso pode ser devastador, com uma das taxas de mortalidade mais elevadas entre as doenças de origem alimentar. Por isso, os especialistas em saúde pública consideram-na uma ameaça silenciosa. Surtos recentes na Europa – incluindo os associados a queijos em França e refeições prontas a consumir na Irlanda – resultaram em várias mortes.

Um aumento preocupante

O último relatório da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) e do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), publicado em dezembro de 2023, documenta a tendência ascendente da listeriose. Em 2023, os países da UE registaram 2.952 casos invasivos – o número mais elevado desde 2007, representando um aumento de 5,8% em relação a 2022. Embora a incidência global permaneça inferior à de outras zoonoses, o aumento contínuo ao longo dos últimos cinco anos indica uma tendência epidemiológica relevante para a saúde pública.

Alimentos prontos a consumir: um ponto fraco

A maioria dos casos de listeriose está associada a alimentos prontos a consumir (RTE, na sigla em inglês – Ready to Eat) ingeridos sem processamento térmico prévio.

Peixe fumado, salsichas curadas, carnes fatiadas, queijos moles e saladas embaladas são considerados como alimentos de alto risco.

Em 2023, foram analisadas quase 187.000 amostras de alimentos RTE em 25 Estados-Membros da UE. A maioria das categorias apresentou taxas de contaminação inferiores a 1%,alsichas fermentadas destacaram-se, com quase 15% das amostras positivas. Queijos duros, peixe e carnes não fermentadas apresentaram níveis de contaminação entre 1-2%. Nas indústrias de peixe, marisco e queijos moles apresentaram, em média, 1% de resultados positivos, enquanto categoria utros produtos” atingiram 2,8%.

 

Um risco persistente e grave

Estudos de validade indicam que a Listeria persiste durante o armazenamento. Em alguns produtos, o seu crescimento pode ser por fatores como o pH e a atividade da água (a w). Apesar dos níveis de contaminação geralmente serem baixos, peixe e marisco atingiram até 10%, com níveis semelhantes observados em carne de vaca, porco, queijos de leite cru, frutas e vegetais. Os dados disponíveis sobre gado, indicam uma presença muito baixa.

A análise de surtos revela um paradoxo. Em 2023, foram reportados menos surtos do que em 2022, mas o número de casos e hospitalizações aumentou. Os surtos podem ser menos frequentes, mas são mais graves. Os especialistas destacam que, ao lado da Salmonella enteritidis, a listeriose permanece uma das zoonoses mais mortais na Europa.

Os grupos de alto risco incluem idosos, mulheres grávidas, recém-nascidos e pacientes imunocomprometidos. Nestes casos, uma manifestação inicial de natureza digestiva pode rapidamente evoluir para meningite ou septicemia.

Vigilância da produção ao consumo

Devido à sua gravidade, a Listeria deve ser controlada em todas as fases da cadeia alimentar. As indústrias e distribuidores implementam sistemas rigorosos de monitorização que são regularmente inspecionados pelas autoridades competentes. Os consumidores também desempenham um papel crucial na manutenção da cadeia de frio e na prevenção de infeções alimentares.

Entre as principais medidas incluem-se a não utilização de produtos ultrapassados do prazo de validade, a higienização rigorosa de frutas e vegetais e a adoção de precauções no manuseamento e consumo de alimentos de elevado risco, como queijos, peixe fumado e carne crua — práticas particularmente relevantes entre populações vulneráveis.

Um desafio contínuo

Os dados de 2023 constituem uma evidência preocupante de que a Listeria é um microrganismo ubíquo em muitos ambientes e persistentemente presente. Como vimos, o número de casos aumentou. Por isso, é crucial manter todas as estratégias de prevenção. As novas regulamentações da UE para o controlo da Listeria, que entrarão em vigor no próximo verão, são um passo nessa direção. Recentemente, publicámos um artigo sobre este tema: “Listeria: Novas regulamentações da UE e como estar preparado”.

De certa forma, a listeriose simboliza a fragilidade dos nossos sistemas de segurança alimentar. Apesar de vivermos num continente com padrões rigorosos e sistemas de controlo avançados, pode haver oportunidades de contaminação por uma bactéria como a L. monocytogenes. Por isso, é necessária vigilância constante em todas as áreas da cadeia alimentar, incluindo a indústria, os hábitos dos consumidores em casa e nos restaurantes, e a sensibilização de todos os envolvidos.

Devemos avançar no conhecimento da bactéria e das suas características genéticas, compreender por que persiste em instalações de processamento de alimentos, muitas vezes formando biofilmes que aumentam a sua resistência. É também necessário implementar novos sistemas e métodos de controlo e eliminação, incluindo técnicas inovadoras como sequenciamento genómico completo e metagenómica.

Conclusão

A listeriose pode não atrair tantas notícias como outras doenças de origem alimentar, mas o seu impacto e significativo. O aumento contínuo e casos na Europa é uma evidência de que a vigilância contínua é essencial. Com a implementação de novas egulamentações, ferramentas de deteção melhoradas e maior sensibilização por parte da indústria e dos consumidores, é possível melhorar a prevenção. No entanto, o controlo da Listeria monocytogenes continua a ser uma prioridade crítica para a saúde pública.

 

Mais informações: EFSA

Autores: Juan José Canet – Joan Estornell

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